Por Régis Tadeu
Ele é, hoje, um dos poucos caras que podem ostentar o privilégio de ter o rock n' roll imediatamente associado à sua pessoa, mesmo quando o Aerosmith se mete a fazer aquelas baladas 'mela-cuecas' que ninguém agüenta mais... JOE PERRY, mesmo nestes momentos, não esconde de ninguém que sua vida foi (perigosamente) devotada a um estilo que levou muita gente mais cedo para o cemitério, devido aos seus excessos - e pode apostar que este excelente guitarrista conhece TODOS eles.
Numa das entrevistas mais difíceis de ser agendada e conduzida - Perry demonstrou extremo mau-humor durante todo o tempo em que conversamos pelo telefone - o guitarrista contou sobre o seu passado, de como funcionava o processo de criação de vários discos fenomenais do Aerosmith e de seus equipamentos. O que vocês lerão a seguir é o relato fiel, quase sem edições, de uma conversa tensa e desconfiada, onde cada informação foi - literalmente - arrancada.
Você não foi um daqueles caras que teve 'trocentas' bandas de garagem antes de ingressar num grupo mais profissional, que no caso foi o Aerosmith...
Perry - Realmente, não. Eu tinha uma guitarra Silvertone e já tocava numa banda com o Tom (Hamilton, futuro baixista do Aerosmith), quando conheci o Steven (Tyler, vocalista) tocando numa banda horrorosa. Depois, quando conheci meus futuros companheiros de banda, me identifiquei tão rapidamente com eles que fomos morar todos no mesmo apartamento, no segundo andar de um prédio em 1325 Commonwealth Avenue, em Boston.
Aposto que havia um clima meio hippie por lá, não?
Era um lar aberto para quem quisesse entrar e ficar, principalmente as garotas... Nosso apartamento era entulhado de equipamentos, tinha guitarras e amplis espalhados por todos os cômodos, nem dava para andar direito lá dentro. Mas foi nesse ambiente caótico, com muita maconha rolando, que compusemos quase todas as músicas do primeiro disco (Aerosmith, de 73).
O fato de Boston ser uma cidade predominantemente estudantil, com grandes escolas de música e universidades, fez com que o circuito underground de bares abrisse as portas para bandas novas. As músicas que estão presentes em nosso disco de estréia foram bastante trabalhadas nos shows antes que entrássemos no estúdio. É por isso que nosso primeiro disco foi gravado em quatro dias.
Eu adoraria ter visto os shows daquela época, já que vocês costumavam abrir para os New York Dolls, e ambas as bandas foram consideradas pela crítica, durante muito tempo, como cópias dos Stones...
(meio puto) Você também achava que nós copiávamos os Stones?
Bom, as semelhanças eram muitas: vocalista carismático com uma boca enorme, cujo parceiro nas composições era o guitarrista-solo construtor de riffs bacanas, a 'pegada' rock n' roll era a mesma, ambas as bandas gravaram "Walkin' The dog" (do cantor Rufus Thomas)...
(demonstrando irritação com os meus argumentos) Pois saiba que, naquela época, nós tentávamos soar como o Fleetwood Mac - com Peter Green - misturando com os Yardbirds e os Beatles. Era isso o que eu tinha em mente quando compus minha primeira música para a banda, "Movin' Out". Ainda hoje, tenho o mesmo pensamento daquela época: para se alcançar o sucesso, basta tocar bem e fazer boas canções.
Com relação aos Dolls, o mais legal é que eles mostraram que o importante, na época, era 'parecer' legal, pois se eles eram muito ruins tocando ao vivo, faziam um estardalhaço do caralho na imprensa e nos shows.
Não sei com relação a você, mas eu adoro os dois únicos discos deles, New York Dolls e Too Much Too Soon...
Eu também! Eles tinham uma puta atitude! Fiquei muito amigo de Johnny (Thunders, guitarrista-solo dos Dolls), comprei algumas de suas guitarras, como uma Gibson Firebird...
Vocês também fizeram uma ótima versão para "Train Kept A Rollin'" (antiga canção rockabilly celebrizada por uma adaptação mais pesada feita pelos Yardbirds) em Get Your Wings. Independente disso também ser uma característica comum aos Stones do começo de carreira, vocês nunca pensaram em lançar um disco só de versões, já que acabou de sair no Brasil um CD-tributo ao Aerosmith?
Sim, essa idéia já nos foi sugerida em 85, quando voltamos a trabalhar juntos depois da separação, um pouco antes de gravarmos o disco Done With Mirrors. Só que como tínhamos boas canções inéditas, resolvemos aproveitá-las.
"Train Kept A Rollin'" foi a primeira e única música que tocamos quando fizemos nosso primeiro ensaio, e até hoje é uma de minhas favoritas, aquela que eu adoraria ter composto. Adoro os Yardbirds, principalmente na época do Jeff Beck, quando eles se tornaram uma banda pop sem deixar de incorporar elementos do blues. Até hoje não entendo porque o (Eric) Clapton deixou o grupo por causa de um purismo quase infantil (Clapton abandonou os Yardbirds por não concordar com um direcionamento mais pop, em detrimento ao som mais blues tocado até então pela banda). "For Your Love" ainda é do caralho...
Mesmo em Done With Mirrors, vocês gravaram uma ótima canção de sua carrera-solo, "Let The Music Do Th Talking". Por que você, depois de três belos discos ("Let The Music Do The Talking", "I've Got The Rock N' Roll Again" e "Once a Rocker, Always A Rocker") optou por retornar ao Aerosmith?
Primeiro porque ter uma carreira-solo depois de fazer muito sucesso com o seu grupo não é nada fácil. Você não vende tantos discos como antigamente, a produção e seus shows fica reduzida... Não é que seja ruim voltar a tocar em bares ou locais menores, mas todo artista - quer ele admita ou não - fica com um gosto de 'carreira regredindo' na boca. Depois, eu e o Brad (Whitford, o outro guitarrista do Aerosmith) resolvemos nossas diferenças com o restante da banda, e nos perguntamos "por que não voltar e chutar a bunda de todo mundo novamente?"...
A verdade é que existem duas músicas absolutamente emblemáticas na carreira do Aerosmith: "Dream On" e "Walk This Way". Você poderia nos contar com essas músicas surgiram?
Quando começamos a trabalhar em "Dream On", a idéia inicial era arranjá-la do mesmo modo que Steven (Tyler, vocalista) tocava no piano - de maneira tosca, diga-se de passagem - ou seja, eu faria a 'mão direita' dele e Brad faria a 'mão esquerda'. Este método, na verdade, acabou se transformando numa das maneiras mais comuns na hora de compormos para o Aerosmith. O fato de Steven ter sido baterista nos ajuda muito na hora de entendermos suas idéias.
Com relação à "Walk This Way", o riff surgiu por acaso, numa passagem de som que estávamos fazendo para um show, se eu não me engano, no Hawaí. Na época, eu estava ouvindo muita coisa funk, tipo The Meters e Kool & The Gang, e resolvi fazer algo que lembrasse isso. Todo mundo na banda ficou impressionado com o que toquei, a ponto de passarmos a tarde inteira tocando-a para que pudéssemos mostrá-la para o público à noite. É lógico que não conseguimos...
Quando entramos no estúdio para gravar Toys In The Attic (75), tínhamos apenas umas três músicas mais ou menos prontas, e um monte de esboços, incluindo "Walk This Way". Este disco foi o nosso auge, e muito disso aconteceu porque tínhamos um ótimo relacionamento com nosso produtor Jack Douglas. Ele foi um dos responsáveis pelo fato de termos feito um disco que julgo irrepreensível, com canções muito legais, como "Walk This Way" e outra de minhas favoritas, "Sweet Emotion".
Esta música é demais!
Eu fiquei paralisado quando ouvi um groove de baixo que o Tom (Hamilton, baixista) mostrou, quase no final das gravações, numa jam session dentro do estúdio.
Aquilo soava como se fosse guitarra! Eu e Brad, de tanto ouvirmos o Rough and Rady (maravilhoso disco de Jeff Beck, lançado em 71), 'chupamos' umas idéias "Rice Pudding" e pronto: "Sweet Emotion" surgiu inteira, no mesmo dia!
Uma coisa curiosa é que vocês tinham a mania de trocar de instrumentos dentro do estúdio, só que não citavam isso na ficha técnica dos LPs. Como foi que isso começou?
(surpreso) Quem lhe contou sobre isso? Isso é verdade, mas fazíamos isso mais como uma brincadeira do que qualquer outra coisa. Se bem que isso aconteceu com mais freqüência durante a gravação do Rocks (76), que foi o período em que eu mais me entupi de heroína.
Um exemplo desse troca-troca aconteceu em "Sick As A Dog", que foi a canção onde Tom consolidou a sua credibilidade como compositor. Nela, ele tocou a guitarra base, eu gravei o baixo até a metade dela, quando então o Steven assumiu o instrumento até o final, enquanto eu gravava o restante das guitarras. O mais inacreditável é que fizemos isso num único take!
O quê?!?
Pois é... Foi um tempo onde a nossa criatividade estava a mil, muito por causa da imensa quantidade de drogas que usávamos. Para liberar suas idéias, alguns bebem, outros fumam maconha... Eu tomava heroína.
O problema é quando a coisa provoca o efeito inverso, ou seja, bloqueia a criatividade.
Que foi o que aconteceu durante as gravações de Draw The Line (77), quando perdemos o controle sobre as drogas. Nós nem nos encontrávamos no estúdio. Cada um gravava a sua parte e sumia por uns tempos. A gente se detestava, ninguém se entendia... Eu conversava com Steven apenas o necessário para que gravássemos. Foi um período muito estressante.
A coisa piorou tanto que eu larguei a banda no meio das gravações do Night In The Ruts (79), que por sinal, é um disco muito mais legal, pesado e coeso que Draw The Line. Gravamos quase tudo ao vivo no estúdio, incluindo os solos. "No Surprise" ainda é uma de minhas favoritas, embora tenha sido deixada de fora do nosso álbum de estréia.
Qual foi a sensação de vocês ao verem que a banda estava voltando a fazer o mesmo sucesso de antes, quando o Permanent Vacation foi lançado e 'arrebentou' nas paradas?
Foi uma grande felicidade para todos nós, principalmente por dissipar as dúvidas que surgiram pelo fato de Done With Mirrors ter sido um fiasco de vendas. Estávamos tão por baixo antes de gravar o Permanent... que eu tive que pedir emprestado quase todo o equipamento do Brad, já que eu fui perdendo o que era meu pelo caminho, para pagar dívidas de advogados, drogas, etc.
(neste momento, a assessora de imprensa americana invade a ligação, avisando que eu tinha apenas mais um minuto de conversa)
Já que estamos falando em equipamentos, vamos falar do seu?
Uso uma Gibson Les Paul modelo Joe Perry, com dois captadores humbucker - um '57 Classic no braço e um especialmente construído pela própria Gibson na ponte - e cordas B.B. King Signature .010, além de várias outras.
No que se refere à amplificadores, os meus favoritos são o Fender Tone Master e um cabeçote Wizard, ambas 4x12".
Se você tivesse que escolher um momento recompensador de toda a carreira do Aerosmith, aquele que fez valer a pena ter passado por tantas dificuldades, qual seria?
Deixe-me pensar... (depois de vinte angustiantes segundos) Primeiro, foi nossa parceria com o Run DMC na versão para "Walk This Way" ter sido decisiva para que o rap fosse aceito pela grande maioria das pessoas e pela mídia em geral. Em segundo lugar, ter tido a honra de ver um de meus heróis, Jimmy Page, entrar no palco, plugar sua velha Les Paul sunburst num ampli, e tocar "Train Kept A Rollin'" conosco no festival de Donnington em 90. Normalmente, eu sou um cara meio frio em relação às minhas emoções. Mas, naquele dia, eu quase chorei... Fiquei tão entusiasmado de tê-lo ao meu lado que agi como um moleque de treze anos de idade. Aquilo fez valer cada segundo da minha vida.