Aerosmith - Viva Las Vegas
Simplesmente Perfeito
Em um ginásio relativamente pequeno, com acústica impecável e um repertório de tirar lágrimas dos olhos e deixar as pernas bambas, o Aerosmith, em grande forma, arrepiou a cidade-cassino, ao vivo e em cores
Por: Andrea Estevam - Fotos: Marcelo Rossi
Há 20 anos, quando o Aerosmith parecia cair no precipício, afundando-se em drogas, brigas e vendas fraquíssimas, os críticos se apressaram em dizer que o grupo já era. Pois a banda, que certo dia alguns deram por morta, hoje está vivinha da silva e atravessando a melhor fase de seus quase 30 anos de carreira. Com o disco ao vivo, A Little South Of Sanity, estourando nas paradas e shows completamente esgotados pelo mundo todo, o Aerosmith anda rindo por último - e melhor.
Depois de rodar o planeta com a turnê de Nine Lives, Steven Tyler, Joe Perry e gangue estão encarando mais uma maratona de shows, desta vez para divulgar A Little South Of Sanity, CD duplo com 23 faixas garimpadas em todos os anos de carreira e gravadas durante as turnês de Get a Grip (1993-94) e Nine Lives (1997-98). Em Las Vegas (EUA), a Revista Rock conferiu a banda ao vivo e teve ótimas surpresas. O Sam Boyd Stadium - ginásio onde rolou o show e que fica dentro do campus da Universidade de Nevada - era pequeno para os padrões aerosmithianos: cabiam ali, no máximo, dez mil pessoas. Para qum só tinha visto o Aerosmith tocar em grandes estádios, com os músicos parecendo pulguinhas saltitantes no palco, isso fez uma diferença e tanto. Ainda mais com a excelente acústica do local. A banda está em grande forma, musical e física. Steven Tyler não arregou a voz nem nos trechos mais cabeludos, indo até o fim de cada grito esganiçado.
O repertório do show, com sons de todas as fases, foi de tirar lágrimas dos olhos e deixas as pernas bambas. Décadas de rock'n'roll ali, na nossa frente, ao vivo, em cores e em alto e ótimo som!
"Tá vendo o que eu tenho que aguentar?"
Na porta do Sam Boyd Stadium, o povo aguardava comportadamente a abertura dos portões. Hippies, modernos e metaleiros dividiam espaço com loiras entaladas em roupas de vinil preto e peruas com quilos de maquiagem. Se nos anos 70 o público do Aerosmith era uma trupe homogênea, hoje é uma misturança geral. Ainda mais em Las Vegas, uma cidade megalomaníaca onde tudo é mais intenso e colorido.
Com sete minutos de atraso, as cortinas que escondiam o palco caíram e os primeiros acordes de Toys In The Attic, classicaço de 1974¹, foram ouvidos. "Vamos tocar 'old shit', 'new shit' e 'medium shit'" (num português chutado, 'sonzeras velhas, novas e mais ou menos'), anunciou o vocalista, com um sorriso diabólico, para deleite tanto dos aeromaníacos quanto da galerinha que só conhecia os sucessos. De roupa preta e cinza e chapéu, ele até que fazia um estilo sóbrio, se comparado às roupas multicoloridas que costumava usar. O guitarrista Joe Perry era o oposto: com um terno vermelho-sangue, cabelos esvoaçantes (graças aos ventiladores estrategicamente colocados no palco) e a cara de mau que Deus lhe deu, parecia o chupa-cabras do rock. Logo de cara, fica claro que o Aero é uma máquina em cima do palco. Uma banda de rock'n'roll clássico que soube envelhecer dentro do espírito roqueiro e que guarda um galão extra de energia para as apresentações ao vivo.
É difícil dizer quais foram os grandes momentos do show, pois cada som parecia ser o clímax, a última música do bis. E depois vinha outra e outra e outra. Duas horas de orgasmos musicais múltiplos. Tyler soube usar os quadris, as mãos, a boca e a voz para levar as americanas ao delírio. Percorrendo as passarelas (que saíam do palco e entravam no meio do público), ele exerceu seu poder de rock star/sex symbol até que as mais empolgadas se rendessem e levantassem as blusas, mostrando os milagres do silicone. Aí ele olhou para a platéia e suspirou: "Tá vendo o que eu tenho que aguentar? É duro...".
Led de saidera
Passada a dureza, veio o momento pombinhos in love. Com I Don't Want To Miss A Thing, os namorados se aproximaram e deram as mãos; com Cryin', se abraçaram e ameaçaram uns beijinhos. A emenda veio pesada: em Dude (Looks Like A Lady), Tyler caprichou nas simulações sexuais e fez com que os que já estavam no abraço quisessem partir para algo mais.
Joe Perry também teve seus momentos de glória: em Rag Doll, tocando slide guitar, e em Draw The Line. Nesta última, o guitarrista solou e estrebuchou até acabar no chão, ressucitando, após alguns segundos, para a música seguinte.
Na introdução de Walk This Way, Tyler mostrou outra habilidade: usando somente as cordas vocais e a respiração, fez, sozinho, um beat box, um rap imitando os barulhos dos scratches e a levada da batida. A baladaça What It Takes foi a (quase) última música do show. No bis, Tyler voltou de blusa branca e Perry de roupa de couro preta, para uma versão ainda mais psicodélica e cheia de distorções de Sweet Emotion.
Como se não bastasse, o Aerosmith ainda mandou ver Heartbreaker e Whole Lotta Love, numa homenagem ridícula de boa ao Led Zeppelin. Foi o golpe de misericórdia num show simplesmente perfeito.
Aeronotas
O CD duplo ao vivo A Little South Of Sanity foi lançado no dia 20 de outubro de 98 nos Estados Unidos. Antes, no dia 17, o CD foi lançado online e ao vivo direto do PNC Bank Arts Center em Homdel, New Jersey. Foi a primeira transmissão realmente interativa pela internet.
Alguns números da turnê de Nine Lives: na América do Norte foram 142 shows em 43 semanas para um público de 2.420.329 pessoas; na Europa: 20 shows em seis semanas para 314 mil pessoas; no Japão: sete shows em duas semanas e público de 189 mil pessoas.
Walk This Way, a biografia oficial da banda foi lançada em 10 de setembro de 1997 e, um mês depois, estava no 12º lugar na lista dos livros mais vendidos divulgada pelo New York Times.
A trilha sonora de Armageddon, com três músicas da banda, estreou no quarto lugar da parada da revista Billboard e, uma semana depois, estava no topo. O primeiro lugar foi mantido por duas semanas seguidas. I Don't Want to Miss a Thing foi a primeira aeromúsica a chegar ao primeiro lugar da parada de singles da Billboard.
Nota: ¹Na verdade, a música é de 1975.