International Magazine


Aerosmith

De Bocão no Blues

Por: Jorge Albuquerque

Durante os anos 70, o Aerosmith tornou-se uma das mais populares bandas de rock pesado dos Estados Unidos. Seu alcance fora sempre foi limitado. Internacionalmente, é verdade, somente a partir dos anos 90, quando seu pop hard rock caiu no gosto do público adolescente da MTV. O grupo nunca foi de elite, mas curiosamente, passado o seu melhor e mais criativo momento, é hoje uma unanimidade de sucesso, e longevidade, que agora pode se dar ao luxo de lançar o que quiser, quando quiser. Inspirados no Led Zeppelin e nos Rolling Stones, o quinteto montou sua música e sonoridade calcado no blues eletrificado, misturado com boogie e pop. Uns noventa por cento do som do grupo se resume a isso, apesar do sucesso comercial residir principalmente num punhado de baladas que lançaram desde a descoberta da mina de ouro com "Dream On" - protótipo da balada do rock pesado com piano, orquestra e guitarras distorcidas. Pois bem, para desespero desse pessoal que conhece apenas o Aerosmith versão light ou a perfumaria dos anos 90, finalmente o conjunto cumpriu a promessa de lançar um disco inteiramente dedicado ao blues - elétrico!

Honkin' On Bobo é o nome do tal disco. Um bom diso de... rock. A banda não teve, no fim das contas, coragem suficiente para embarcar de cabeça no projeto, que a gravadora considerava não-comercial (sic!). Porém, antes disso, um punhado de canções tradicionais de blues, de gente como Willie Dixon e Sonny Boy Williamson, entre outras desconhecidas (LittleWalter, Smiley Lewis) e originais, do que aquele monte de baboseiras grudentas que Steven Tyler vinha cantando ultimamente. Por falar em Tyler, é ele quem responde pelo calcanhar e Aquiles do disco. A sua voz, diferente da de Mick Jagger, não tem nada a ver com blues. Quase estraga algumas boas canções. Seus trejeitos, afetações vocais, incrível vontade de aparecer, tem pouca afinidade com a economia e a simplicidade do gênero. Joe Perry largou na frente aqui, e bem que este poderia ser um disco instrumental. Aerosmith instrumental? Nem pensar, diria o executivo da gravadora. Ou eles mesmos. Então engula o Tyler e procure ficar atento ao esforço dos outros quatro.

As guitarras de Joe e Brad Whitford estão nos cascos, enquanto Joey Kramer e Tom Hamilton seguram a onda na cozinha. Para um disco e blues, ou pra sua pretensão, até que a bateria de Kramer brilha em muitos momentos. É só escutá-la logo na faixa de abertura "Road Runner", onde os vocais de Steven já deixam bem claro o que está por vir. "Shame, Shame, Shame" traz o toque dos anos 50, com um suíngue dos bons. "Eyesight to the blind" e "Baby, Please Don't Go" são dois clássicos, com Perry absolutamente fenomenal nos riffs e nos solos.

Pode até parecer que eu não gosto de Steven Tyler. Pelo contrário, nos anos 70 ele tinha personalidade no palco e é sem dúvida uma das grandes figuras do hard rock nesses últimos 30 anos. Mas cantando blues? Não é a dele. É tão claro isso que Joe Perry canta ele mesmo duas das melhores canções de Honkin' On Bobo - o que ele não fazia desde Get A Grip, de 1993. "Back Back Train" é um blues lento, tristonho, viajante, na medida para a voz e a guitarra de Joe. A segunda música com vocal do guitarrista é "Stop Messin' Around", um dos pontos altos do disco, com um excelente solo de Perry em outra canção mais rock'n roll do que blues.

Para mostrar que esse não é uma espécie de disco tributo ou coisa parecida, "The Grind" é uma canção nova da dupla Tyler & Perry, um rock embebido em blues, na tradição Aerosmith. "Jesus Is On The Main Line" é acústica e talvez a jóia da coroa para um disco que se pretendia blues. Perfeita para o fechamento de Honkin' On Bobo. Com um coro gospel, parece saída de uma igrejinha do interior do Mississipi. Entre as muitas vozes do coral, presença de outra filha de Tyler, Chelsea. Por falar em participações, algumas são tão especiais quanto ilustres. E a principal é a figura do lendário pianista Johnnie Johnson, que dá o único toque de blues genuíno em todo o disco.

Honkin' On Bobo contou com a produção caprichada e deliciosamente old fashion de Jack Douglas, o mesmo dos melhores álbuns do Aerosmith nos anos 70. Em grande parte, o ingrediente que vinha faltando nos últimos e um tanto chatos discos do conjunto. Talvez ele tenha ajudado Hnkin' On Bobo a não parecer assim, diria, tão bobo com TYler, emprestando a ferocidade do rock do Aerosmith de Perry & Cia para o idioma lamacento e tradicional do blues. Injetando o som negro e cáustico do estilo na veia da afetação rock'n roll, diluindo um pouco do estrelismo da banda. Parece mesmo que os caras estão se divertindo e fazendo realmente o que gostam, com tantas décadas nas costas. Para um disco de rock, esse aqui está no ponto para ser curtido e colocado, talvez apenas ao lado de Pump, como a boa volta à velha forma Aerosmith.

 
 

 
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