Aerosmith
Em paz para sorrir novamente
Para fugir do inferno que foi o disco anterior, Steven Tyler recorreu até a um amuleto. Parece que o talismã funcionou, pois a banda fez seu "álbum mais fácil pelo fator alegria", como confessa o vocalista.
Por: Daniel Oliveira, de Boston, EUA
Cruzes, terços, santos, estátuas... Os seres humanos buscam sorte e paz espiritual por meio desses objetos. Steven Tyler, por sua vez, acredita numa chave pendurada em seu pescoço. Ele diz que o pequeno artefato abre portas para bons momentos em sua vida. Durante a produção de Just Push Play - o novo disco do Aerosmith -, o vocalista optou por pendurar o talismã n porta de sua casa. Segundo sua crença, ruindades ocorreriam caso ele se movesse. Como o amuleto manteve-se na mesma posição, a banda terminou o álbum sem sobressaltos. Steven lembra da história de um amigo de infância: "Antes de morrer, seu avô lhe deu uma chave igual e disse: 'Essa é a chave de tudo. Se você tiver dúvidas sobre algo, olhe para ela'. É meio o que as religiões tentam nos dizer: não é um Deus externo, e sim um Deus interno que precisamos cultivar".
Nesse espírito positivo, o vocalista está com o baixista Tom Hamilton e o guitarristas Joe Perry e Brad Whitford (o baterista Joey Kramer não apareceu por causa de compromissos familiares) em um quarto do hotel Four Seasons, em Boston, a cidade natal do Aerosmith. As ruas nevadas propiciam uma atmosfera interna aconchegante e os ornamentos marroquinos que o grupo exigiu no local elevam o clima místico. Seja ou não pela fé de Steven, os quatro amigos estão claramente unidos e felizes. A prova é o bom humor que esbanjam durante a entrevista. "Este foi o nosso álbum mais fácil pelo fator alegria", admite o vocalista, usando óculos escuros sob a iluminação branda do quarto. "Nossos trabalhos sempre foram dolorosos, ma neste rimos mais do que em qualquer outro".
Com seu jeitão de rockstar, realçado pela calça de couro velha, Joe ressalta que a última coisa que o Aerosmith queria era rever o inferno que foi a criação de Nine Lives, em 1997. Além de estarem deprimidos na época, os membros do grupo brigaram feio com seu empresário e sua gravadora. "É meio assustador. Ouço algumas canções novas e questiono: 'De onde surgiram?'. Leio as letras e penso: 'É um milagre!'", reflete o guitarrista. Ele aproveita para elogiar a força de Steven no disco: "Quando vejo grandes músicos, é como se Deus falasse através deles. Isso acontece com Steven. Algumas coisas que saem de sua boca são inacreditáveis. Até saio da frente para não interferir".
Intensidade jovem
Na melhor tradição do Aerosmith, Just Push Play engloba rocks pesados e baladas emocionantes. A força das guitarras, no entanto, vai ainda mais longe que nos discos anteriores. Joe e Brad exploram distorções cavalares em canções como "Light Inside", "Under My Skin" e Beyond Beautiful". Curiosamente, os dois guitarristas cresceram ouvindo bandas de rock mais "suaves" , como Beatles e Fleetwood Mac. De onde tiraram, então, a agressividade que injetam nas canções do Aerosmith? "Esses grupos nos influenciaram, mas não queremos copiá-los", explica Perry. "Quando escuto nossos primeiros discos, noto que sempre curtimos guitarras pesadas. Além disso, acho que Stone Temple Pilots e Rage Against The Machine nos influenciam".
Joe admite que, durante a composição do álbum o grupo comparou suas músicas ao trabalho de artistas mais jovens. "Não queremos que você ouça o Stone Temple Pilots e ache que o Aerosmith não pode fazer igual", afirma o guitarrista. "Queremos que nossas canções tenham a mesma intensidade". Steven e Joe escreveram Just Push play ajudados por músicos e produtores externos. Como em discos anterioes, Tom, Brad e Joey não participaram da composição. "É o mesmo de sempre - escrevo milhares de coisas, mas antes de poder testá-las, o álbum já está pronto!", diz Tom, com bom humor. Joe continua: "Trabalhamos assim há muito tempo. Esse rumo criativo surgiu naturalmente. O processo parece andar mais rápido assim".
Em outra traição do Aerosmith, Just Push Play é recheado de temas sobre garotas. A capa traz uma mulher em forma de robô - algo como uma Marylin Monroe cibernética - e Steven canta sobre dúvidas, alegrias e tristezas amorosas. O interessante é que o vocalista, como os outros membros do grupo, é casado e experiente sentimentalmente. Por que, então, questiona tanto o amor nas canções? "Todo mundo tem fantasias", responde ele. "Expresso minhas fantasias através das letras. Como sou bastante sensitivo, curto falar de vários sentimentos amorosos e das surpresas que proporcionam".
Parceria inusitada
O Aerosmith voltou aos palcos em janeiro deste ano, quando tocou na final do campeonato de futebol americano, o Super Bowl, na Flórida. Organizado anualmente, esse é o evento esportivo mais rentável e badalado nos Estados Unidos - algo como a Copa do Mundo deles. Surpreendendo seus fãs, o quinteto tocou "Walk This Way" com a musa infantil Britney Spears e os mauricinhos do 'N Sync. Foi como se o Sepultura tocasse "Territory" com Paulo Ricardo ou os Raimundos tocassem "Puteiro Em João Pessoa" com Sandy & Júnior. O público rock, naturalmente, desaprovou a combinação bizarra no palco.
O assunto pega fogo na entrevista, e todos os membros querem se explicar. "O fato de termos tocado com esses artistas não significa que seremos como eles musicalmente", defende-se Tom. "Nossos fãs não devem se preocupar com isso. Quando nossa turnê começar, eles verão o Aerosmith de sempre". "O 'N Sync é o melhor em seu estilo, e nós os melhores em nosso", prossegue Joe, sem mencionar Britney. "As pessoas não devem dizer que queimamos o filme por causa de oito minutos no palco com esses caras". Falando pela primeira vez, Brad adiciona: "uma vez assisti a vídeos de DJs quebrando discos do Elvis porque não gostaram das coisas que ele fez. As pessoas queriam queimar discos dos Beatles por causa da opinião de John sobre Jesus. Isso é ter cabeça fechada". "Se irritamos os outros, então honramos as nossas raízes rock'n'roll", completa Steven.
No aspecto positivo ddo show, o Aerosmith fez o público lembrar quem realmente originou a mistura de rock e hip hop. Afinal, o estilo de "Walk This Way" é moda total nos Estados Unidos agora. Bandas como o Limp Bizkit e Rage Against The Machine, que vendem milhões combinando os dois estilos, devem agradecer ao quinteto de Boston por ter gravado a tal canção em 1986 com os rappers do Run DMC. mesmo com tamanho pioneirismo, o grupo não perde a humildade. "Se não fossemos nós, outra banda teria feito o mesmo", diz Joe. "É uma progressão natural. Apenas aconteceu de estarmos no lugar certo e no momento certo". Steven acrescenta: "Algumas dessas bandas atuais são legais. É tudo uma questão de atitude.
Sopa de frango
O Aerosmith exemplifica bem a vida conturbada de roqueiros famosos. Steven, Joe, Brad, Tom e Joey vivenciaram tudo que uma carreira musical pode proporcionar: sucesso e decadência, drogas e álcool, riqueza e falência, boatos e mentiras, brigas e reconciliações. O mais surpreendente é que, após 30 anos, eles continuam unidos. Nem a breve saída de Joe e Brad comprometeu a amizade do grupo. bandas como Pink Floyd, Deep Purple e Rolling Stones, por mais que tenham sobrevivido ao tempo, perderam membros originais. Até grupos mais jovens, como Metallica e Sepultura, tiveram o mesmo problema.
"É uma questão de química", diz Brad. "Não dá pra explicar como conseguimos. É como uma sopa de frango. Se você tirar o frango, a sopa ficará diferente, mesmo que tenha os outros ingredientes". Joe conta que o Aerosmith aprendeu com seus erros, incluindo as brigas e as drogas. "Já desmaiamos no palco, eu e Brad saímos, fizemos de tudo... Tivemos sorte de escapar da morte. Nossas personalidades devem ter algo que nos fortificou quando nos encontramos".
Steven, particularmente, fala sem frescura do seu passado negro com os entorpecentes. "Perdi minha primeira mulher e quase morri. A banda perdeu tudo o que tinha. Eu estava tão doidão que nem prestei atenção. Liv, minha filha, não falava comigo. Eu nem a vi até seus 8 anos. Não quero que essas coisas aconteçam novamente".
Os vacilos da banda estão relatados na biografia oficial Walk This Way, de 1997. Como Joe disse uma vez, "o livro não é sobre esquizofrenia. É apenas sobre autodestruição com senso de humor". Milagrosamente, os narcóticos não destruíram o quinteto física ou psicologicamente. Steven e Joe têm aparência saudável para seus 52 e 49 anos, respectivamente, e, como Tom, Brad e Joey, estão para lá de lúcidos.
Agora uma pergunta cruel, mas fundamentada: existe a tentação de um retorno às drogas? "Sim", admite Steven, surpreendendo. "Trocamos as drogas pelos discos, que estão saindo mais rapidamente, e reatamos relacionamentos. As coisas importantes de nossas vidas reaparecem. O desejo de euforia ainda existe, mas, quando lembro de tudo que perdi, vejo que não vale a pena arriscar".
Contraste no Brasil
Na única visita do Aerosmith ao Brasil, no festival Hollywood Rock, em 1994, Tom surpreendeu-se com a diversidade étnica do país. "Foi como ver os Estados Unidos no dia em que o racismo acabar", lembra. Além disso, o baixista teve uma visão positiva sobre a nossa economia. "O Brasil possui todas as ferramentas para crescer. isso precisa acontecer um dia. O padrão de vida americano pode servir de exemplo".
Joe, por sua vez, curtiu a personalidade dos brasileiros. "Eles são mais emotivos e abertos em seus sentimentos. Já nos shows são mais expressivos", percebe. Como a maioria dos americanos, o guitarrista também reparou no contraste visual do país. "De um lado, há cidades monstruosas. De outro lado, selvas - literalmente! O Brasil tem algumas das paisagens mais exóticas e fascinantes que conheço. Adorei nossa visita. É uma pena que não toquemos lá freqüentemente".
Porque não querem: o grupo tem muitos fãs no Brasil e o single de "Jaded" está repetindo no país a boa performance obtida no resto do planeta. Roberto Medina, abra o olho!