Telegraph


Still Walking This Way

Steven Tyler do Aerosmith conta a Andrew Perry como a banda sobreviveu a 35 anos de excessos do rock-and-roll.

"Eu fiquei aqui o dia inteiro", diz Steven Tyler, aparecendo de repente na porta do banheiro em sua luxuosa suíte no hotel. "E quer saber? Aquele trilho da toalha ficou acelerado". Ele faz uma careta de desaprovação e revolta e diz "Por que? É um disperdício enorme de energia. Sério, vou ligar pro Al Gore!".

No começo da carreira do cantor, ele quase certamente não sairia do banheiro com pensamentos sobre a mudança climática; mas naquela época, um coquetel de drogas teria ocupado mais espaço em sua cabeça. O Tyler de 2007, entretanto, poderia ensinar o ex-presidente e eco-defensor uma coisa ou outra sobre auto-preservação.

O Aerosmith, a banda que ele lidera há mais de 35 anos, é de grandes sobreviventes do rock e lidou com o tempo com mais sucesso do que qualquer outra banda de sua geração.

Quando o grupo começou no início dos anos 70, eles capitalizaram em cima do sucesso de artistas como Rolling Stones e Led Zeppelin, cujas agendas de turnê sempre em expansão necessitavam de espaços enormes entre as visitas. O Aerosmith preenchia o espaço energeticamente, trazendo um rock and roll similarmente blueseiro, altamente-amplificado a cada clube na América, e logo chegou à liga dos estádios também.

Depois de uma queda encharcada de drogas nos anos 80, eles voltaram mais fortes, criando a primeira mistura de rock/rap ao lado do Run-DMC em "Walk This Way", depois se re-sincronizando com os públicos de rock da era Guns N' Roses via pérolas obscenas como "Dude (Looks Like a Lady)". Tyler mais tarde curtiu outro renascimento através da habilidosa power ballad comercial, "I Don't Want to Miss a Thing".

Seu álbum mais recente, "Honkin' on Bobo" (2004), os encontrou atirando o clássico rhythm and blues com uma sensibilidade de mestre. Não foi um sucesso grande, mas o Aerosmith permanece uma das maiores atrações ao vivo do rock. Daqui a 10 dias, eles assumem a direção do Hyde Park, cenário do lendário show dos Rolling Stones em 1969, e sem dúvida terão alguns pontos em particular acontecendo com seus rivais britânicos, que na semana passada fizeram sucesso na Ilha de Wight.

A estrutura da metade de baixo do rosto de Tyler vai garantir que ele nunca escape de comparações com Mick Jagger, mas ele certamente segue seu próprio caminho.

"É estranho, depois de todos esses anos e ainda estamos massivamente nisso", ele diz andando hiperativamente por sua suíte. "Por estarmos tanto na estrada, não temos tempo de ir ao dentista, ao médico, ou sair de férias. A minha filha vai se formar no segundo grau e eu estarei em Dubai! Eu tive que dizer à ela, 'Aw baby, eu tentei mudar, mas teria que mudar a turnê inteira! Um 'argh' que vale seis milhões de dólares!".

Ouvindo-o, qualquer um deve imaginar como Tyler, uma forte união de narcisismo e neurose, consegue se manter de pé. A resposta torna-se clara quando, numa entrevista separada no mesmo hotel, eu encontro Joe Perry, o cadavérico Keith Richards para o Jagger de Tyler. Seu relacionamento de disputa é o motivo do comportamento da banda.

"Steven vive e respira o Aerosmith", diz Perry, debaixo de uma bagunçada cobertura preta. "Para mim, às vezes, é só uma forma de vida. Eu amo tocar rock and roll e colecionar guitarras, mas não sou parte daquela coisa de celebridade. Eu não preciso daquilo".

Quando Perry saiu do Aerosmith no começo dos anos 80, a banda se separou. "Naqueles dois ou três anos", ele diz com uma ponta de orgulho, "eles continuaram excursionando como Aerosmith, continuaram cancelando shows, e caindo no palco. Eu voltei e nós basicamente então tivemos que provar que estávamos bem. Isso tudo era parte de sairmos do buraco negro".

O doloroso abandono das drogas pelo Aerosmith está graficamente documentado na autobiografia que eles publicaram em 1997, como parte de sua contínua reabilitação. Chamado "Walk This Way", é muito mais horripilante do que o "The Dirt" do Mötley Crüe, destacando o terrível egoismo que a dependência causa.

Tyler fala relutantemente sobre as alianças da banda com os narcoticos. No final da nossa conversa, ele vem rapidamente até mim, planta seus lábios gigantes perto da minha bochecha e diz "Sem drogas no seu artigo, OK?".

Perry, ao contrário, tristemente relembra o tempo em que "você sentava na primeira classe nos aviões, passava uma garrafa de coca e simplesmente virava a cabeça e fazia hits". Seu maior arrependimento é o livro. "Não tínhamos que contar aquilo tudo", ele diz, visivelmente envergonhado. Ele começa a explicar que foi necessário ganhar a confiança de volta com uma indústria que os via como desperdiçadores.

Por incrível que pareça, a participação no Hyde Park é parte da primeira turnê européia da banda em oito anos. Segundo Tyler, "o material antigo soa muito melhor agora. Na última turnê, não tivemos nenhuma review ruim. A princípio, isso me assustou. Eu achei que era o beijo da morte".

"Somos uma daquelas poucas bandas que pode ser uma jukebox viva e simplesmente tocar músicas através das décadas", diz Perry. "Vamos despencar com amplificadores e guitarras e nos mostrar como uma banda ao vivo de novo".

Perry ressaltou a ausência da banda numa carta, que chegou à minha residência duas semanas depois. "Oito anos é um longo tempo nesse negócio", ele escreveu em letras maiúsculas. "Obrigado pelo tempo e pelo apoio". Você não receberia isso do Keith, receberia?

 
 

 
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