Private Air


Stream On

Steven Tyler do Aerosmith tem voado alto (às vezes em mais de uma forma) por quase 40 anos. Agora, recém-chegado da turnê mais radical até hoje, o consumidor fiel da Gulfstream explica o que faz dele o superstar mais pé-no-chão do rock.

Por: David John Farinella

Steven Tyler não senta e fica quieto. Ele pula, se mexe, remexe, ri e, graças à coleção de relógios, pulseiras e cordões que adornam sua imagem de 59 anos, ele chacoalha. Mais do que isso, entretanto, Tyler verdadeiramente cantarola com aquela rara combinação de energia e vibração que transforma meros rock stars em ícones. "Em primeiro lugar", ele começa com um sorriso, "eu sou aquele cara de lábios grandes do Aerosmith. Estou nisso há muito tempo, mas a qualquer época do ano, a qualquer hora do dia, parece que foi ontem que estávamos no Max's Kansas City".

Então, do nada, Tyler começa a cantar "No Surprize", do lançamento de 1979 do Aerosmith, "Night in the Ruts", uma música que re-conta a noite de 1971 no Max's, o lendário clube de Manhattan, quando a carreira do Aerosmith foi lançada: "1971, we all heard the starter's gun/New York is such a pity/But at Max's Kansas City we won/We all shot the sh*t in the bar/With Johnny O'Toole and his scar/And then old Clive Davis said/He's surely gonna make us a star".

Mais ou menos um ano antes do "ontem" de Tyler no Max's, o cantor conheceu o guitarrista Joe Perry e o baixista Tom Hamilton numa sorveteria em Sunapee, New Hampshire e os três decidiram começar uma banda. O guitarist Brad Whitford e o baterista Joey Kramer se juntaram a eles logo depois e os cinco se mudaram para Boston, onde começaram a compor, fazer shows e fazer o seu nome.

No começo dos anos 70, o mundo se abriu para uma banda de hard-rock que se especializou em melodias cativantes, letras repletas de duplos sentidos e música pulsante. Nos 35 anos desde sua estréia — que incluiu "Dream On", uma das baladas mais aclamadas de todos os tempos — o Aerosmith teve altos e baixos e, agora, está de volta novamente. Entretanto, o que é surpreendente é o quão filosófico o vocalista de "My Big Ten Inch" é sobre toda a experiência.

“Estar no Aerosmith é viver no rabo de um cometa", proclama Tyler, se acomodando numa poltrona reclinável no escritório do hangar do Norwood Memorial Airport, uma pista a 25 milhas ao sul de Boston. O comentário traz a mente o único avião que ele realmente possuiu — ele alugou centenas — um Wiley Twin Turbo Conversion Cessna que ele comprou em 1976. "Foi estupidez", ele lembra.

"Ele era muito rápido. Costumávamos fazer essas coisas chamadas parabolic arcs onde você fica sem peso. Se alguém não sabe o que você está fazendo, fica assustado e acha que está morrendo. A verdade é que está simplesmente está vivendo uma experiência de falta de gravidade. É a mesma coisa que você fazia quando criança, quando pulava da sua macieira favorita e passava pela falta de gravidade por uma fração de segundo".

Não morrendo, em outras palavras, mas simplesmente o leve e assustador cheiro da morte, então você pode sair do seu sistema e curtir o passeio.

Livin' it up when I'm going down . . . Lovin' it up till I hit the ground. — “Love in an Elevator”

A aviação tem sido parte do Aerosmith, embora tangencialmente, desde o começo. Conforme a história segue, os membros da banda costumavam sentar todas as tardes para assistir aos "Três Patetas". Um dia, eles tiveram um encontro pós-Patetas para tentar decidir um nome. Kramer se voluntariou e disse que quando estava na escola, ele escrevia a palavra Aerosmith por todos os seus cadernos. O nome apareceu em sua cabeça depois de ouvir o álbum "Aerial Ballet" de Harry Nilsson, uma homenagem aos artistas do circo dos avós de Nilsson, que contava com um artista pulando de um bimotor. Inicialmente, os companheiros de banda de Kramer ficaram desanimados; eles todos acharam que ele estava se referindo ao livro chato de Sinclair Lewis que eles foram obrigados a ler na escola. "Não, não é Arrowsmith", explicou Kramer. "A-E-R-O . . . Aerosmith".

Avançando para 1977. Com o nome e as asas em seu logo, o Aerosmith passou a maioria de suas primeiras turnês andando de ônibus. Quando a banda vôou, foi comercialmente, mas logo antes da Express Tour do Aerosmith com o AC/DC, Tyler — que tinha comprado o Cessna para uso pessoal um ano antes — se convenceu de um ditado popular a favor do frete: menos vigilância.

"Algumas vezes, por causa de nossos hábitos, nós até alugamos um DC-3, porque ele era o único disponível", ele lembra com um sorriso. "Era um verdadeiro foguete, mas tem que ser o mais seguro já feito".

Na verdade, aqueles era dias embassados, embriagados e obscuros pela fumaça. (As equipes locais nunca eram grandes fãs do Aerosmith.) E conforme o néctar criativo começava a secar, a banda logo sucumbiu. Em 1979, Perry saiu para começar seu próprio grupo. Mais ou menos um ano depois, Whitford também saiu. Quando Tyler teve um colapso no palco em 1982 durante a turnê "Rock and a Hard Place", o Aerosmith parecia destinado a um final trágico e merecedor de um "Behind the Music".

Entretanto, Perry e Whitford voltaram em 1984 e a banda recomeçou sua ascensão com a turnê Back in the Saddle. Lançou um novo álbum, gravando "Walk This Way" com as lendas do hip-hop Run-DMC, e de repente se viu com um novo single arrasador. No final dos anos 80, cada membro da banda tinha completado o período de reabilitação. Os ex-"Toxic Twins" Tyler e Perry, particularmente, tornaram-se fanáticos por saúde e forma física, contratando personal trainers, chefs macrobióticos e massagistas.

O Aerosmith, em 2008, atingiu mais uma vez uma boa altitude. Sua turnê mais recente — a primeira a correr literalmente o mundo — esgotou estádios de 70.000-100.000 lugares na Europa, Índia, América Latina e os EUA. Não confunda o Aerosmith com os Beach Boys ou quaisquer outros roqueiros geriátricos que recentemente se reuniram para multidões de parques temáticos; na verdade, qualquer um poderia questionar isso, conforme eles fecham sua quarta década juntos, Tyler e seus companheiros tornaram-se a icônica banda de rock ao vivo, com exceção talvez de seus rivais aposentados, os Rolling Stones. Tem até uma conversa de que os caras podem ter ainda outra "Dream On" — ou pelo menos uma "Black Cherry" — eu seu saco de truques. "Temos mais um álbum com a Sony, e estamos ansiosos por encerrar esses 20 ótimos anos", Tyler diz sobre o álbum ainda sem nome, programado para o final deste ano. "Não queremos lançar um álbum medíocre de blues. Queremos fazer um álbum bom, de verdade. Entrar lá como nos velhos tempos. Eu ainda acho que não escrevemos nossas melhores músicas".

Quando o Aerosmith está em turnê atualmente, a banda acampa em, digamos Chicago, e então viaja para cara parada no meio-oeste em uma das G4s ou G5s que ela tipicamente se caracteriza. Tyler gosta da rotina que esta agenda oferece — acordar todo dia no mesmo quarto de hotel com um pouco de café-da-manhã e uma ginástica antes da viagem para o aeroporto e o vôo para o local do show. "Chegamos ao show às 18h, backstage às 19h, então eu sempre como salmão e brócolis uma ou duas horas antes do show todas as noites", ele diz. "Então estou no palco das 21h às 23h".

Pouco depois do último bis, eles pulam num carro e seguem com escolta policial para o aeroporto. "Quando nós decolamos, eu olho pela minha janela — sempre fico no lado direito — e vejo as luzes dos carros se alinhando para sair", ele diz. "É como os créditos finais de 'Field of Dreams', quando você vê todos aqueles carros se alinhando". Tyler sempre pega o primeiro assento no lado direito, acomodando-se com uma pilha de travesseiros que ele surrupiou do hotel, enquanto a banda se amontoa nos fundos. "Eu tenho uma personalidade Tipo A, então eu me preocupo com um monte de coisas que os outros caras não se preocupam", ele diz. "Eu sento lá na frente e reclamo e eles sentam lá atrás e jogam cartas". Os itens top de seu checklist: um avião com banheiro (afinal, ele tem 59 anos), e um piloto que tenha filhos, "Eu sempre digo a eles que vão sentir minha falta quando eu ficar quieto".

Toda essa conversa sobre aviões e vôos faz com que Tyler erga sua mão esquerda. "Você já viu um desses?", ele pergunta oferecendo um close-up de um instrumentos de relógio obscuro e de alta-tecnologia. "Você desaparafusa esse mostrador, e dá uma freqüência de precipitação. Estes são ilegais nos EUA, mas eu tinha que ter um. Eu acho que você tem que ser piloto licensiado para ter um desses. Eu não sei quais são as restrições, mas eu tive que comprá-lo na França e contrabandeá-lo para cá. Então, não importa onde eu esteja, se eu abrir aquilo, alguém vai aparecer em 20 minutos. Normalmente é a Marinha, e então eu sou pego e interrogado por uma hora até acabar autografando as fardas deles e seguir meu caminho".

Os fãs deles podem ficar surpresos com o quão excêntrico Tyler é. Ele diz que é assim desde criança e viu sua primeira mini-bike. "Eu tive uma bicicleta, mas nunca imaginaria que poderia ter uma com um motor. Era um pequeno motor Briggs & Stratton e eu tinha que ter um".

Aquela experiência também inspirou seu projeto atual, a Red Wing Motorcycles. Ele começou a empresa com o engenheiro Mark Dirico e Stephen Talarico da AC Custom Motorcycles de New Hampshire, e o trio recentemente lançou suas primeiras motos. "Isso me dá muita alegria", diz Tyler. "Não vou fazer muito dinheiro com isso, com certeza, mas algumas pessoas vão ter a moto de seus sonhos. Elas são lindas. Nós as mantivemos no estilo retrô e usáveis. Muito seguras muito demon-of-screamin'".

É estranho que, dado a sua fascinação por máquinas e testar as leis da gravidade, Tyler nunca tenha tido aulas de pilotagem. O que não é dizer que ele nunca tenha pilotado. "Foi em Vegas em 1986, e eu vi um paraglider com um grande fã na traseira. Eu disse, 'Não importa o quão velho seja aquele aviãozinho, eu quero aquele'. Então o comprei, o coloquei na mala do carro e fui tirar férias no Hawaii", ele lembra.

Cansado de sua reclinável, Tyler se levanta e demonstra como ele montou a biruta, deu a partida do motor (imita os barulhos do motor) e depois pula do penhasco. "Você está se segurando, e puxa a vara de metal pra fora e coloca os seus pés nos cabos de cada lado do seu corpo". Ele está visivelmente empolgado agora. "Você corre pra trás e está no ar. É tão divertido poder voar por cima do topo de um carvalho de 9 metros e pegar o fruto mais alto e comer".

"Eu nunca vou esquecer o meu primeiro vôo. Eu tava morrendo de medo. Eu estava inclinando quando estava a 500 pés de altura. Simplesmente sentei lá e disse, ' ‘Steven,você é o 007'. Você tem que imaginar que está num para-quedas. Então virei muito devagar e ele subiu muito. Eu estava a 4.000 pés, meus filhos estavam lá embaixo olhando pra cima e foi apavorante".

A única fronteira que Tyler não cruzou — ainda — é a viagem espacial. Dois anos atrás, ele tinha juntado o dinheiro para ir numa nave russa. "Eles iam me ensinar a falar russo e eu ia. O único motivo para eu ter desistido foram os meus filhos. Eu estava sentado num restaurante, e eles começaram a gritar ‘Daddy, no, no'. Mas eu estava pronto, muito pronto".

Ao invés disso, Tyler satisfez sua fome galáctica passando no Kennedy Space Center para visitar astronautas em órbita. "Eles me deixam entrar na sala de comando e uso qualquer codinome que eu tenha que usar — não tenho autorização para dizer quais são — e então digo a eles, 'Ah, gente, aqui é Steven Tyler. Espero que estejam curtindo aí pela gente, como estamos curtindo aqui por vocês'. Então o cara diz, 'Espere. . . . '".

"Uma vez eu estava usando o simulador e tive a chance de decolar e pousar a nave. É muito difícil, sabe. Você não pode olhar pela janela e dizer se está de cabeça pra baixo, porque você está no espaço". Ele ri. "Então você tem que saber por feeling. Eu estava errado e parei. Ficou muito quente, a nave pegou fogo e explodimos. Mas eu pousei em outra tentativa".

Está tarde e Tyler tem alguns amigos o esperando para jantar. Sentando na beira da reclinável, ele comtempla a pergunta se ele se sente sortudo por estar vivo. Depois de alguns segundos de silêncio, facilmente o maior do dia, ele dá uma resposta apropriadamente elíptica. "Eu poderia creditar tudo a sorte ou a Deus, mas eu escolhi não fazer isso. Escolhi dizer que um pouco disso foi sorte, mas a maior parte foi um presente que eu escolhi ver. Eu escolhi possuí-lo. Meu pai tocava piano cinco horas por dia. Eu poderia não ter ouvido, mas eu ouvi. Eu captei".

"Quando eu conheci o Joe e aqueles caras, eles não sabiam afinar as guitarras ou cantar afinados, mas eu estava tão certo de que eles tinham alguma coisa que nenhuma das minhas outras bandas tinha. Então eu peguei aquilo e a minha sensibilidade melódica, juntei tudo e um mais um formou dois. É difícil dizer. Eu acredito em Deus. Acredito numa força maior, mas acredito mais em sair do seu próprio caminho, o que é o ego... todo mundo tem um. Eu não tenho muito disso. Escolhi não cultivar um, porque as pessoas que tem investem muito nele".

Então ele fica de pé, chacoalhando e pronto para sair. "Que perda de tempo lidar com um ego. Quer saber? Você nunca vai encontrar alguém que tenha cometido mais erros do que eu. Vamos deixar assim". Ele solta outra risada, deixando a mais alta pro final. "A única diferença entre eu e as outras pessoas," ele diz antes de diminuir para um sussurro, "é que eu aprendi alguma coisa".

E ele sai, pronto para voltar para o rabo do cometa.

 
 

 
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